sábado, 21 de novembro de 2009

Cesare (3°post e provavelmente penúltimo post)

Estimado visitante. Volte no tempo, digamos assim, uns 2 anos e meio. Agora imagine-se indagado sobre "quem é Cesare Battisti?". Sua cara mesclada de surpresa e vergonha por possivelmente nao saber responder a algo supostamente importante já diz tudo. Nao exijamos tanto nesta era de informacoes instantâneas. Imagine-se entao diante de uma pergunta mais idônea, que quase nada tem a ver de atualidade, mas sim de história política. Algo como "comente o cenário político da Itália pós II Guerra Mundial, enfatizando os principais fatos dos anos 70 e 80 e suas possíveis implicacoes na atualidade".
Diante de sua perplexidade, caro visitante, nao exijo resposta alguma. Ou melhor, ao que desejo como resposta vem na seguinte, e prometo que última, pergunta:
Por que o resultado de ontem (20nov2009) numa enquete online do Estadao.com dava 87% de votos pela extradicao de Battisti enquanto 13% apoiam sua permanencia?
Mastigue-a bem antes de engolir, ou cuspir.

Pois meu amigo Silvio, reproduzo abaixo teu email, deixando também aqui o link dos posts escritos no início do ano
post 1
post 2

Rafa
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Caros Companheiros,

O Comitê de Solidariedade à Cesare Battisti foi formado com o objetivo de libertar o preso político Cesare Battisti, através de uma ampla campanha de solidariedade.

O site da internet pode ser acessado através deste link: http://cesarelivre.org/

Nele estão hospedados diversos artigos a respeito do "caso Battisti" que nos permitem observar o caso a partir de vários ângulos. Há, inclusive, um FAQ (Perguntas Mais Frequentes) que explica detalhadamente a história e o andamento do caso.

Nesta quarta-feira, o STF, com o voto do Gilmar Dantas, optou pela extradição de Battisti. Foram 5 votos a favor, 4 votos contra a extradição. O desempate coube ao mencionado Gilmar Dantas. Contudo, também por cinco a quatro, os ministros do STF decidiram que o presidente Lula tem autonomia para decidir se extradita ou não Cesare Battisti.

Nesta terça-feira, Anita Prestes enviou carta ao presidente Lula, subscrevendo carta do Lungarzo, da Anistia Internacional. A carta, que está abaixo, pede a Lula que não cometa o crime de entregar Battsti, como fez o governo Vargas com sua mãe, Olga Benário, e seus familiares.

Espalhem a todos os teus contatos as informações que puderem. E vamos pressionar, em nome da justiça, dos direitos humanos e da vida, pela permanência de Battisti!!!

Fraternalmente,

Silvio Machado
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Carta de Anita Prestes (filha de Olga Benário) pedindo a Lula que não entregue Battisti
Tue, 11/17/2009 - 22:11 | by cesare_livre
Exmo. Sr. Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva.
Na qualidade de filha de Olga Benário Prestes, extraditada pelo Governo Vargas para a Alemanha nazista, para ser sacrificada numa câmera de gás, sinto-me no dever de subscrever a carta escrita pelo
Sr. Carlos Lungarzo da Anistia Internacional (em anexo*), na certeza de que seu compromisso com a defesa dos direitos humanos não permitirá que seja cometido pelo Brasil o crime de entregar Cesare Battisti a um destino semelhante ao vivido por minha mãe e minha família.
Atenciosamente,
Anita Leocádia Prestes
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*a carta referida pode ser lida aqui: http://www.cesarelivre.org/node/185

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Encontro com Castells e livro Comunicación y Poder

Bem, a típica coisa que nao me levaría a escrever. Mesmo porque já sabia que ia acontecer e nao lhes propus uma oportunidade de voz. Por esquecimento, no meio da vida atabalhoada. Desculpas! Assim mesmo, agora, vou contar-lhes. Estando ontem em posicao privilegiada junto a Manuel Castells, tive que indagar-lo sobre algumas de suas idéias fundamentais em seu novo livro: Comunicacao e Poder (já falarei dele). A curiosidade era que, agora que ele considera a sociedade estruturada em rede com dispositivos de poder difusos que estao finalmente localizados no corpo (nao estao delirando, é Foucault e devidamente ditado), nao estaría "equivocado" o emprego constante do "conceito" de massas (ele usa essa palavra para criar alguns conceitos chave, como autocomunicacao de massas, por exemplo)? Humilde e amavelmente contou que é uma das partes que deseja trabalhar logo. Citou (verbal e também já textualmente) a "multidao" de Negri e Hardt como algo satisfatoriamente exitoso no campo teórico.
Sua última obra foi publicada esta semana na Espanha, com o título Comunicación y Poder (ja existia a versao em ingles desde alguns meses). Como sei que Castells nunca incorporou a bibliografia do Reflexoes Contemporaneas, me parece uma excelente oportunidade de incluir-la. Os sociólogos locais (leia-se espanhóis), alguns com argumentos, outros sem, nao costumam respaldar Castells. Há exemplos claros de guerra por prestígio, encampada apenas dentro das polidas quatro linhas acadêmicas. Nao vem ao caso. O que sim importa é que, como idéias, soma em trazer com bastante concretudo (ele adora dados...)muito daquilo que já defendíamos teoricamente (acabo de afirmar nossa ignorância: nao nos interessa mudar de opiniao e escutamos aquilo que queremos escutar. oras, é o princípio da comunicacao!)
Aposta por uma convergência de política, economia (diz que a economia deve politizar-se), tecnologias (nao-deterministas), sociologia e psicologia cognitiva/neurologia (leia-se Antonio Damasio, seu vizinho de sala na Califórnia) para elucidar o funcionamento do poder em sua forma atual mais potente: a comunicacao. Poderia-se dizer igualmente que é uma teoría comunicativa com as bases supra-citadas.
Se a coisa é como afirma John Bargh que nosso corpo inconscientemente processa 11.000.000 de bits por segundo enquanto conscientemente seu máximo de processamento nao passa de 50 bits por segundo (durante uma leitura extremamente concentrada, por exemplo), existe todo um complexo meio a ser considerado quanto às maneiras predominantes que jogam na hora em que o corpo absorve informacoes, comunica-se e por fim transforma o resultado de todos os bits conscientes e inconscientes em um plano de acao, ou melhor, quando tudo se transforma em (bio)política.
Depois disso, talvez uma leitura: Zizek, "A visao em paralaxe", para ver alguns dos atuais conflitos entre a psicanalise e o cognitivismo.

Cores no Reflexoes Contemporaneas. Valeu Silveira!

Grande Silveira, o cavalheiro mais valente desta tropa quase caída. Quase!
Trazer cores e este desenho ao blog foi uma atitude muito generosa. Lembram, há mais de dois anos, que mexíamos com a idéia de um logo? Estes bits estampados no monitor resgataram a sensacao antiga de fazer revista (ainda nao a coragem de propô-la seriamente, outra vez!).
Uma revisao nos quadros perigosos de polaridades entre modernidade e pós-modernidade só me leva a incluir a anestesia no campo da primeira e a sinestesia na segunda. Sejamos sinestésicos (mas cuidado com o posmodernismo radical, bitte!)! A sinestesía talvez seja fato psicologico e perceptivo mais expressivo que estende as idéias kantianas ao seu máximo rigor empírico: o mundo da perspectiva subjetiva. Você vê o mundo colorido? Relaciona linguagem ou matemática a formas mais abstratas, materializadas em tua mente, no teu mundo real? Talvez nao, mas vê o mundo de uma maneira singular. Mais: sente o mundo de maneira única.
Já deixamos o estado anestésico que forma as massas. Trabalhemos com a sinestésica multidao!
Valeu Silveira, por tirar o monocromo de nossa tela virtual!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Berliner Mauer

Apenas um forte sentimento nostálgico para superar a inércia e jogar a existência numa cartase aristotélica. A inércia, aliás... Nela habitaria meu caos. Menos criativo, mais destrutivo no tatame que escapa aos pés da identidade.
Bornholmer Strasse, 20 anos depois. Cruzei muitas vezes aquela ponte. Fiz caminho semelhante, abandonei por pouco tempo o leste em direcao ao oeste. Distancia tao insignificante no mapa do bairro e tao grande no destino. Aquele leste sempre foi indiscutivelmente mais interessante, mas a proibicao aplicada ao livre movimento exigia forca que promovesse alguma mudanca. Que ao final veio no suicídio de um regime que irremediavelmente sucumbiria pouco mais tarde.
A celebracao de hoje teve algo menos espetacular, muito espontaneo. Melhor ver Angela Merkel ritualizando sua caminhada sobre a ponte de Bornholmer de maneira quase espontânea do que presenciar a queda do muro duas décadas depois numa tentativa de espetacularizar a história e trazê-la para plano atemporal. A Copa do Mundo de 2006 talvez tenha viciado Berlin na esquizofrenia da festa midiática, mas esta cidade é mais potente que as imagens que tentam superficializá-la.
De fato estao todos muito contentes em relembrar que uma contingencia vital foi sanada naquele 9 de novembro de 1989. Mas no fundo desta celebracao existe caladamente uma atmosfera saudosa de tempos em que houve uma sociedade mais solidária e este tempo nao voltará mais. Parece que os outros tantos muros exaltados como merecedores da ruína se transformarao na esperanca de que se constituam em pontes entre passado e futuro a projetar um resgate que nos lance com avidez em um momento menos instável e distante das precariedades material, mental e afetiva.
Os caminhos coletivos e pessoais se confundem em tempos distintos mas num mesmo espaco. As razoes sao algo misteriosas, mas ambos precisam das pontes apropriadas para que um dia possam compartir outra vez o mesmo lugar. Nada menos que aquele "dasein" heidegeriano transmutado no sentimento intraduzível de heimatweh.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Döner

Curiosa Notícia de 22 de Janeiro de 2009

Fallecio el pasado lunes el Señor Mahmut Aygün a los 87 años en un asilo en Berlin Kreuzberg, creador del delicioso Döner Kebab.

El Döner Kebab es de las comidas mas baratas en Alemania y de las más vendidas, llamado comida de estudiante, fue creado en 1972 por el señor Mahmut Aygün de origen turco que residia en Berlin Kreuzberg, el señor Aygün creo el Döner Kebab en 1972 cuando tuvo la idea de ofrecer carne de ternera y/o cordero en un pan Arabe (Pita).

quinta-feira, 23 de julho de 2009

F for Fake / Man on Wire

Baita filmes para serem vistos no espaco de uma semana. O primeiro é uma mentira que parece verdade. O segundo uma verdade que parece mentira. No fim as duas coisas podem ser vistas do mesmo ângulo e plenamente confundidas, embora outras vezes estejam diametralmente opostas... Do lado de Orson Welles en F for Fake é autoreflexivo, o artista em metamorfose cambaleando do real ao imaginário, fictício. O Filme é de 1973. Um ano depois, 7 de agosto de 1974, o evento que deu motivo para o seguinte filme: a travessia de Philippe Petit entre as duas torres gemeas de NY. Recentemente o feito virou filme documentário pelas maos do diretor James Marsh e ganhou os prêmios mais importantes de cinema em 2008/2009. Filme esplendoroso e inacreditável. Enquanto Lewis Munford criticava o padrao ubano e as duas torres nova iorquinas (com razao!), o artista Philippe Petit parecia mais em sintonia com Michel de Certau e Nietzsche. Levou a vida no fio da navalha como se fosse tomar sorvete. Admirável.

Blogs e Redes Sociais

Está cada vez mais claro que as redes tipo Facebook e Twitter atraem muitos atos narrativos que vinham sendo executados nos Blogs.
Acho que da lista aí ao lado somente um ou dois blogs poderiam ser considerados "ativos".
Nao é crítica nem nada. Na realidade escrever aqui é tranquilo porque ninguém lê. Serve mais de arquivo mesmo...

sábado, 30 de maio de 2009

Conserto, Concerto

Honestamente tinha esquecido que o blog existia...
Semana passada comecei a conjeturar quando escreveria algo. O conserto veio ontem. Um convite destes irrecusáveis feito por uma grande amiga: assistir a um concerto privado de Diana Krall.
Sim visitante blogonauta, você leu certo. Apenas 10 filas de cadeiras, nada de sistemas de segurança, tudo muito próximo e inclusive informal. Nao suficientemente sortudo, o destino ainda reservava mais um capricho: sentar na cadeira central da primeira fila. O que nao era nem justo chamar de fila, porque de fato estava dentro do palco, já que nao havia diferença de altura e nem obstáculos entre nós e Diana com seu excelente trio de músicos. E digamos que eu também nao acreditava muito naquilo, porque dali era esticar o pé pra coloca-lo sobre o piano. Dizer que estava perto é pouco e realmente foi uma hora para nao se esquecer. E saber que um privilégio como esse nunca mais se repetirá. Felizmente a TVE gravou como material promocional para quando ela volte em sua turne no mes de outubro.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Brahmeiro

...para desencargo de consciência, esta nova propaganda (da Brahma com Ronaldo) deveria vir com um daqueles avisos no final, algo do tipo: "O Ministério da Saúde adverte: Cerveja dá barriga e faz você confundir mulher com similares"

A frase é de Roberto Torero, na Folha de SP de 14/04/2005

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Bancos têm 100 mil carros de inadimplente

TONI SCIARRETTA / Folha de SP / 25-02-2009

Os bancos brasileiros têm em conjunto um estoque de pelo menos 100 mil carros recuperados de clientes inadimplentes, o equivalente à metade das vendas mensais de veículos novos no país, para desovar no mercado de autos usados. Esse estoque é mais um motivo de pressão no segmento de usados, que vive queda sem precedente nos preços e cuja falta de liquidez trava as ações para retomar a venda de carros novos.
Os principais bancos que financiam veículos relatam que o volume de recuperação cresceu de 20% a 30% no início do ano em relação ao que acontecia até setembro. Já leiloeiros e empresas terceirizadas de recuperação veem alta de até 50% no número de veículos que costumava chegar aos pátios.
Segundo o Banco Central, o sistema financeiro tinha uma inadimplência média de 4,3% em dezembro, o maior nível desde 2002. Se todos esses carros voltassem ao mercado, somariam até R$ 3,506 bilhões -o valor efetivamente recuperado, no entanto, é sempre menor do que a inadimplência total porque os bancos procuram esgotar todas as possibilidades de negociação (leia abaixo).
A retomada também não costuma cobrir o valor da dívida financiada devido à depreciação e aos custos envolvidos na recuperação. Do dinheiro arrecadado em leilão, parte cobre a dívida em aberto no banco e o restante volta ao cliente para indenizar as prestações pagas, como define o Código de Defesa do Consumidor.
No Bradesco, o volume financeiro de carros recuperados triplicou no ano passado até dezembro -saltaram de R$ 76,1 milhões, no final de 2007, para encerrar o ano em R$ 207,5 milhões. Só a recuperação de carros teve um impacto de R$ 300,3 milhões na contabilidade do banco, sendo R$ 92,892 milhões em provisão para perdas. O Banco do Brasil teve recuperação de R$ 20,7 milhões no final de dezembro, ante R$ 584 mil no final de 2007.
O Santander/Real, cuja financeira Aymoré é uma das líderes no setor, não diferencia as receitas provenientes de recuperação de veículos e imóveis (que têm a menor inadimplência do mercado), mas reporta um volume retomado de R$ 277,7 milhões em dezembro -no ano anterior estava em R$ 192,8 milhões. Outro líder do mercado, o Banco Votorantim, não detalha em seu balanço o crescimento da recuperação, mas os executivos afirmam que se trata de uma das menores do mercado. Itaú e Unibanco ainda não divulgaram resultados.
A retomada de carros pelos bancos está tão alta que esbarra inclusive na infraestrutura limitada de pátios, que se esgotaram em São Paulo e lotam áreas no interior do Estado.
Apesar da preocupação crescente com a inadimplência, o volume de carros retomados representa pouco mais de 1% dos 9 milhões de veículos alienados no país, segundo a Fenabrave (associação das concessionárias). Na conta dos bancos, de cada 4 financiamentos inadimplentes, apenas 1 termina com a retomada.
Para o presidente da Fenabrave, Sergio Reze, a recuperação de veículos cresceu junto com a inadimplência, mas encontra-se ainda em um patamar "absorvível" pelo mercado, criando oportunidades para lojas de usados, empresas de recuperação, leiloeiros e administradores de pátios.
"Os 100 mil [veículos recuperados] estão dentro dos padrões normais. É um pouco mais de 1% dos financiamentos. Se fosse uma coisa de outro mundo, viraria um negócio para a gente [concessionárias]. Se os leilões vendem, não há encalhe. O problema dos bancos acaba virando um negócio para terceiros", disse Reze.
Maior leiloeiro de veículos do país, Luiz Fernando Sodré Santoro afirma que vendeu 5.300 carros em janeiro em seu pátio em Guarulhos (Grande São Paulo), 20% mais do que em janeiro do ano passado. "Em fevereiro, o movimento continua firme. Quem compra um carro no leilão costuma pagar, no mínimo, 30% menos", disse.
"Temos um aumento de mais de 50% de veículos retomados desde o final do ano", disse Mário Cássio Maurício, da CNVR (Comercialização Nacional de Veículos Reintegrados), que faz a recuperação de carros.
O maior volume desses carros, no entanto, só deve chegar aos pátios a partir de março, refletindo a inadimplência de janeiro. Isso porque a reintegração da posse de um veículo alienado pode demorar até três meses, dependendo da disputa judicial. "Infelizmente, quando a inadimplência sobe, a atividade de cobrança aumenta, incluindo a recuperação. A inadimplência de 4,3% ainda é administrável. O que me preocupa é a curva [crescente]. Onde ela vai parar?", disse Luiz Montenegro, presidente da Anef (associação dos bancos das montadoras).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Caso Battisti e Terrorismo Midiático II

Eis que acaba de sair uma entrevista com Toni Negri:


15/02/2009 - 07h35
Itália insulta o Brasil no caso Battisti, diz filósofo italiano Toni Negri
Thiago Scarelli/UOL Notícias/São Paulo


A Itália adota uma postura "insultante" com o Brasil no conflito em torno do ex-ativista Cesare Battisti, porque não se trata de um país desenvolvido, e mente quando diz que vivia um Estado de Direito nos anos 70. A análise é do filósofo italiano Antonio Negri, que passou mais de dez anos preso por seu envolvimento com a militância de esquerda na Itália.

Negri é co-autor, com Michael Hardt, do livro "Império", publicado no Brasil em 2001 e umas das obras mais importantes e polêmicas sobre o processo de globalização. Com Giuseppe Cocco, publicou "Global - Biopoder e Luta em uma América Latina Globalizada", em 2005.

Leia abaixo a entrevista completa, concedida por Negri via telefone desde Veneza.

UOL - Como o senhor vê a posição da Itália no caso Battisti?

Antonio Negri - A posição italiana é uma posição muito complexa. Como se sabe, o governo italiano é um governo de direita e é um governo que, depois de 30 anos, retomou a perseguição das pessoas que se refugiaram no exterior depois do final dos anos 70, depois do final dos anos nos quais na Itália houve um forte movimento de transformação, de rebelião. E, portanto, o governo italiano retoma hoje uma campanha pela recuperação destas pessoas. Em particular, tentou fazê-lo com a França, para conseguir a extradição de Marina Petrella [condenada por subversão pela justiça italiana] e não conseguiu porque o governo francês, a presidência francesa [Nicolas Sarkozy], impediu. Neste ponto, aparece em um momento exemplar o caso Battisti.

UOL - O que o senhor quer dizer com perseguição? É perigoso neste momento para Battisti retornar à Itália?

Negri - Eu não sei se é perigoso. Mas é certo que ele foi condenado à prisão perpétua e seria para ele uma situação muito grave.

UOL - Um dos motivos que o Brasil cita para manter o refúgio político é a ameaça de perseguição política contra Battisti...

Negri - Mas seguramente ele seria alvo de uma perseguição política e midiática.

UOL - Trata-se, portanto, de um temor com fundamento?

Negri - Veja bem, o governo italiano, depois de 30 anos, quer recuperar, para fazer um exemplo, as pessoas que se refugiaram no exterior. E que se refugiaram no exterior porque na Itália havia uma condição de Justiça que era impossível de aguentar.

UOL - O que significa esse "exemplo"? A punição de Battisti resolveria a questão da violência na Itália nos anos 70?

Negri - Precisamente. Resolveria em dois sentidos: por um lado, se recupera aquilo que eles chamam 'um assassino'; e por outro se esquece aquele que foi um Estado de Exceção, que permitiu a detenção e a prisão preventiva de milhares de pessoas durante estes anos. É necessário recordar que nos anos 70 o limite jurídico da prisão preventiva era fixado em 12 anos. É necessário recordar o uso da tortura e de processos sumários inteiramente construídos sob a palavra de presos aos quais era prometida a liberdade em troca de confissões. Este foi o clima dos anos 70. E não nos esqueçamos que nos anos 70 houve 36 mil detenções, seis mil pessoas foram condenadas e milhares se refugiaram no exterior. E se há quem duvide desses números, e que quer continuar duvidando, basta que deem uma olhada nos relatórios da Anistia Internacional naqueles anos. Portanto, essa é uma questão muito séria. O caso Battisti é, na verdade, um pobre exemplo de uma estrutura, de um sistema no qual a perseguição, insisto na palavra 'perseguição', era acompanhada por enormes escândalos na estrutura política e militar italiana. Houve uma construção, principalmente por meio de uma loja maçônica chamada P2, de uma série de atentados dos quais ainda hoje ninguém sabe quem foram os autores, atentados que deixaram milhares de mortos, por parte da direita. E o governo italiano nunca pediu, por exemplo, que o único condenado por estes atentados seja extraditado do Japão, onde se refugiou. Existe uma desigualdade nas relações que o governo italiano mantém com todos os outros condenados e refugiados de direitas que é maluca. O governo italiano é um governo quase fascista.

UOL - Se houvesse um governo de esquerda na Itália o caso seria o mesmo? [O líder da oposição de centro-esquerda] Romano Prodi faria o mesmo?

Negri - Eu não acredito que Prodi faria o mesmo, mas parte da esquerda faria o mesmo, isso é verdade.

UOL - Como o senhor vê hoje o PAC [Proletários Armados pelo Comunismo, grupo do qual Battisti fazia parte]?

Negri - O PAC era um grupo muito marginal, mas isso não significa que não estivesse dentro do grande movimento pela autonomia. Mas ouça, o problema é esse: eu acho que as coisas das quais foi acusado Battisti são coisas muito graves, mas - e isso me parece importante dizer - estas são responsabilidades compartilhadas por toda a esquerda verdadeira. Não se trata de um caso específico. O Supremo Tribunal Federal do Brasil construiu uma jurisprudência pela qual foram acolhidos outros italianos nas mesmas condições que Battisti.

UOL - E como a Itália deve solucionar esta dívida com o passado?

Negri - Isso deveria ser feito por uma anistia, mas o governo italiano nunca quis caminhar por este terreno. Talvez tudo isso tenha determinado tremendas conseqüências no sistema político italiano, porque foi retirada da história da Itália uma geração ou duas, que poderiam ter conseguido determinar uma retomada política. É uma situação muito dramática. E gostaria de acrescentar uma coisa: o a postura da Itália no confronto com o Brasil a respeito deste tema é uma postura muito insultante.

UOL - Por quê?

Negri - Trata-se de uma pressão feita sobre o Brasil, enquanto um país fraco, depois que os franceses não extraditaram à Itália Marina Petrella. Psicologicamente, trata-se de uma operação política e midiática muito pesada contra o Brasil, na tentativa de restituir a dignidade da Itália, no âmbito da busca de restituir os exilados.

UOL - O senhor acha que as autoridades italianas se sentem especialmente ofendidas pelo fato de a decisão em favor de Battisti vir de um país em desenvolvimento, antiga colônia de um país europeu?

Negri - Seguramente, porque se trata de pobres que reagem contra os ricos, contra os capitalistas.

UOL - O senhor também esteve preso?

Negri - Eu fui detido em 1979 e fiquei na cadeia até 1983, em prisão preventiva, sem processo. Em 1983, houve um eleição parlamentar e eu saí da cadeia porque fui eleito deputado, porque não era ainda condenado. Fiquei preso quatro anos e meio - e poderia ter ficado até 12. Ou seja, quando os italianos dizem que nos anos 70 foi mantido o Estado de Direito, eles mentem. E isso eu digo com absoluta precisão, com base no meu próprio exemplo: fiquei quatro anos e meio em uma prisão de alta segurança, prisão especial, fui massacrado e torturado. Pude deixar a prisão apenas porque fui eleito deputado - do contrário, eu poderia ter ficado na prisão por 12 anos, sem processo. Durante os anos que fiquei na França, exilado, eu fui processado e condenado a 17 anos de prisão, mas que foram reduzidos porque havia uma pressão pública forte em meu favor. Quando voltei para a Itália, fiquei outros seis anos presos e encerrei a questão.

UOL - Quais eram as acusações?

Negri - Associação criminosa, gerenciamento de manifestações que eram violentas nos anos 70, em Milão, em Roma, em toda Itália. Mas a primeira acusação que sofri não era de agitador político, por escrever jornais etc., mas de chefiar as Brigadas Vermelhas, o que não é verdadeiro, e de ter assassinado [Aldo] Moro, acusações das quais fui absolvido depois. Entende? Na Itália se busca desesperadamente fazer valer uma mitologia dos anos 70, que é falsa. E a direita no poder hoje busca a qualquer custo restaurar um clima de falsidade e de intimidação para não permitir que a história seja contada como foi.

UOL - Existem aí semelhanças com o governo militar no Brasil?

Negri - Isso eu não sei, porque acho que os governos militares na América Latina foram particularmente violentos. Mas o problema é outro: a questão é que a liberdade, o Estado de Direito e as regras da democracia não podem ser infringidos ou falsificados em nenhuma situação.

Melhor parar de ler notícias II

comentário anônimo:

Pelo menos você não está sozinho:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=523FDS003

abs

Carnaval

Antes da festa havia gente misturando tradicao e punk. Por que nao?
O nome deles: www.zarzuelapunk.es

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

09/02/2009 - 10h56
Produção de veículos sobe em janeiro; vendas apontam leve recuperação

KAREN CAMACHO
Editora-assistente de Dinheiro da Folha Online

A produção de veículos registrou forte queda em janeiro deste ano em relação ao mesmo mês do ano passado, mas disparou 92% ante dezembro, segundo dados divulgados nesta segunda-feira pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

De acordo com a entidade, no mês de janeiro foram produzidos 186,1 mil veículos, ante 255,2 mil em janeiro de 2008, o que representa queda de 27,1%. No entanto, em relação ao mês anterior, dezembro de 2008 (96,6 mil), a alta foi de 92,7%.

Os licenciamentos, indicador de vendas, atingiram 197,5 mil veículos em janeiro, alta de 1,5% em relação a dezembro (194,5 mil), mas queda de 8,1%% na comparação com o registrado no mesmo período de 2008, quando foram comercializadas 215 mil unidades.

Já as exportações de veículos somaram US$ 428,3 milhões em janeiro, queda de 58,3% em relação a janeiro do ano passado, quando atingiu US$ 1,023 bilhão, e queda de 50,5% em relação ao mês anterior, dezembro de 2008, (US$ 865,3 milhões).

O número de empregos nas montadoras registrou em janeiro a terceira queda consecutiva do ano, redução de 1,5%, com fechamento de 1.858 vagas. Com a redução da demanda do mercado exterrno e a falta de crédito internamente, uma série de montadoras anunciou férias coletivas e dispensas de temporários de seus quadros.

Para estimular o setor, o governo federal anunciou em dezembro a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para as montadoras. Os carros populares 1.0 tiveram a alíquota do IPI reduzida de 7% para zero. Os modelos médios, com motor entre 1.0 e 2.0, tiveram a alíquota reduzida de 13% para 6,5% (modelos a gasolina) e de 11% para 5,5% (nos modelos flex e a álcool). Todas as reduções valem até o dia 31 de março.

Estoque

O estoque de veículos novos somou 193.384 em janeiro deste ano, o que equivale a 31 dias de vendas considerando o ritmo atual do mercado. Em dezembro de 2008, o estoque somava 211.314 veículos, equivalente a 36 dias.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Teaching 2.0

Esse vídeo tá interessante. Uma conferência de John Seely Brown na Universidade da California (Davis).

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Melhor parar de ler notícias

E é assim. Sempre que leio uma notícia, qualquer que seja, mas principalmente destas que vem (sem acento agora, né?) nas primeiras páginas dos portais de internet, vejo-me provocado a trazer até aqui a crítica. E como nao estamos falando de excecao senao de regra, isso cansa pacas...
O exemplo é de uma matéria sobre o Fórum Social Mundial. Para resumir, o texto passa a idéia de que a FSM é mais um shopping center, cheio de "capitalista" esquisito. Uma forma clara de desqualificar o evento, claro. O grande problema é a base de construcao da opiniao. Há referência a um par de estudantes vendendo coisas pra ganhar dinheiro e de um vendedor profissional que usa a FSM para vender camisetas. Mas será que a FSM se resume a alguns "capitalistas camuflados" a la petistas oportunistas?
Disso tenho certeza que nao. Há muita gente capaz dedicando muitas horas na organizacao do evento e estes, responsáveis pelo mesmo, nao estao vendendo cerveja, camiseta ou brincos. Temo que o autor da reportagem tenha perdido as coisas que realmente acontecem num evento assim. Ou, o que temo ainda mais, é que saiba muito bem o que e como escreveu esta matéria. Porque com seu joguinho de contradicoes "planejam outro mundo mas lucram com o atual", consegue cair apenas no vazio do conteúdo para criar opinioes superficiais, generalistas e incorretas. Como se vê, alguns nao precisam de um outro mundo mesmo. O mundo atual da desinformacao dá empregos para muita gente.


Participantes do Fórum planejam "outro mundo", mas lucram com o atual
Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em Belém (PA)

Mesmo com o objetivo declarado de "libertação do mundo do domínio do capital", tem muita gente fazendo caixa com o Fórum Mundial Social, que começa nesta terça. Nem que seja para pagar os custos de viagem até Belém.

Como um grupo de uruguaias estudantes de sociologia que viajou de carona até o Pará. Elas estão vendendo saias que fizeram por R$ 35 e R$ 45 para bancar o verão no Nordeste brasileiro. "Queríamos chegar aqui para as discussões, mas depois é praia", sintetiza Cecília Etchevers diante de um varal com seus produtos na entrada da Universidade Federal Rural da Amazônia, uma das sedes do evento que reúne pensadores de esquerda do mundo inteiro.

Já Antônio Carlos Martins, de Ribeirão Preto (SP), trouxe 500 camisetas com frases de poetas, músicos e filósofos. Este é o quinto Fórum Mundial que leva suas mercadorias. "Bom mesmo é esses congressos de humanas. Já fui a encontro de medicina e veterinário, mas não vende." Ele conta que entrou ramo como bico e virou profissão - ele sabe mais o calendário acadêmico que muito professor universitário.

Entre as camisetas que vende por R$ 15 há uma com frase do poeta português Fernando Pessoa ("Tenho em mim todos os sonhos do mundo") e outra com letra da música do jamaicano Bob Marley ("Há pessoas que amam o poder, outras que têm o poder de amar"). "O pessoal de história, filosofia e letras é mais sensível e gosta dessas coisas", define Martins.

Mas a diversidade de produtos não para nas roupas e botons com lemas de esquerda. Índios paraenses vendem brincos e colares com penas de pássaro por R$ 15 para os visitantes. E são a mania dos europeus em Belém com suas tatuagens com jenipapo, por R$ 5. Outro serviço é alugar bicicleta em tenda de cicloativista. "O preço aqui é pela cara do cliente", já, de cara, explica o atendente ao lado do acampamento dos estudantes.

Alguns dissidentes do movimento estudantil montaram um bar, vendendo cerveja por R$ 2,50, mas logo a proibição de álcool na área barrou as intenções. Já Gaspar Lima cuidava de uma barraca de produtos hippies, mas também com souvenires locais, como uma bolsa com imagens do Estado e a frase "Eta Pará Pai D`Égua", expressão típica da região.

As barracas de comida local também invadiram o Fórum. Os barraqueiros começaram no Fórum Mundial Ecumênico, passaram ao Fórum Mundial de Educação e finalmente se instalaram na versão original, oferecendo maniçoba, pato no tucupi e tacacá por preços abaixo dos R$ 6.

O Fórum prevê um espaço para a chamada "economia solidária", com troca de produtos e serviços. Também na agenda estão várias palestras e mesas-redondas para comentar a crise global que o capitalismo vive. Mas enquanto planejam um "outro mundo possível" (lema do encontro), os participantes do Fórum vão lucrando no atual.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Caso Battisti e o Terrorismo Midiático

Há alguns meses no Brasil ninguém sabia quem era Cesare Battisti. O desconhecido veio à tona com a mascara dada pela grande mídia.
Não tenho acompanhado a mídia televisiva, mas a da internet sim. Não há como não comparar a situacao atual com a vivida pelo também italiano e militante esquerdista Antonio Negri. Este foi acusado pelo assassinato de Aldo Moro, viveu exilado na França com ajuda de Deleuze, Foucault, Guattari e outros. Passou também muitos anos na cadeia. Não era culpado por crime algum, mas isso já nao importava. O rótulo estava posto e na cabeça do povo nada mudaria. Toni Negri, que seria sempre ícone de crime político, hoje já desfruta de estatus bem distinto e faz uma das leituras de mundo mais instigantes da atualidade. Reconhece a ineficácia de uma luta política armada, de um esquerdismo utópico, dos partidos políticos e dos discursos nacionalistas.
Battisti não é Negri. Mas viveu o mesmo período político, foi acusado por crime que diz nao haver cometido e automaticamente condenado pelo governo populista italiano e sua força midiática sem direito de justa defesa. O "mesmo" governo que provavelmente forjou vários crimes naquele período para criminalizar os grupos que nao concordavam com o direcionamento político no país. Estes direitistas italinos, fascistas, nao foram condenados pelas sabotagens assassinas e seguem no poder.
Incompreensivelmente nao vejo na nossa mídia nenhum aprofundamento histórico e verídico dos fatos. Ficaria a pergunta pela razao de tal desinformacao.
Battisti já foi condenado outra vez. Agora pela mídia brasileira, que em pouco tempo foi capaz de desinformar e criar as opinioes mais incoerentes e desconexas de um contexto histórico de fatos e vidas reais. A imagem criada sobre Battisti é a de um criminoso da pior espécie capturado fuga. A foto de Cesare escoltado com armas pesadas em cena já faz parte do imaginário. Seu acentuado aspecto de cansaço também.
Outro dia havia uma matéria que falava de diversos casos de exilados que se tornaram conhecidos. Misturaram nazistas assumidamente assassinos com casos de acusados que nao tiveram as condicoes justas de defesa.
Sobre a atitude do governo brasileiro, nao é questao de aplaudir. Fez o que deveria ser feito.
Os últimos meses foram curiosos. Seria irônico que nesse período um homem com o histórico - diga-se admirável - de Gabeira, se tornasse o possível salvador do Rio de Janeiro ao passo que um sujeito como Battisti fosse deportado como o pior tipo de gente. E graças à mídia da mesma cidade maravilhosa.
Para ser usado sem o discernimento exigido, seria melhor aposentar a palavra "terrorista" do dicionário. Na história contemporanea do ocidente, no frescor dos acontecimentos, ela jamais foi empregada sobre as pessoas corretas.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Homo criminallis, Homo oeconomicus e Business World

Há alguns temas que considero de extrema relevância e não são abordados na intensidade que representam. A toda hora há uma mobilização pronunciada pela mídia que envolve e produz um certo tipo de opinião pública e uma clara classificação do que deve ser colocado à ordem do dia. Espetaculizam o seno da informação e ensombrecem o campo do conhecimento. Isto é geral.
Pois bem. Ouve-se falar em guerras distantes, trazidas midiaticamente como um filme desses que misturam tragédia, aventura, emoção e a iminência do heroísmo e da justiça, e se insiste em nao abordar causas nem motivaçoes reais, transmitindo apenas fatos que se perdem na hora de elaborar uma opiniao coerente que conecte os elementos ao mundo. A anti-genealogia!
Mais trágico que as cenas de violência globais é o contexto da violência urbana e a regulaçao da vida nas cidades.

Vamos direto ao país do Business e perguntemos: qual é o serviço público estadunidense que gasta $60bi ao ano para oferecer um anti-serviço social e aumentar seus custos a cada ano? (Estamos falando de um valor próximo a 10% do PIB de um país como o Brasil)
As prisões estadunidense são a casa de quase 4% dos adultos que vivem no país. A média de permanência é de dois anos e cada um deles custa cerca de $1700/mês, sendo que dos 700.000 libertados a cada ano, 500.000 voltam à prisão dentro de três anos.
O aumento de detenções por uso ou comércio ilegal de drogas elevou também o tráfico dentro das instituições carcerárias e é tacitamente utilizada para controlar o animo dos usuários e viciados, que são 80% da população carcerária.
E por que tudo isso é um negócio e não exatamente um serviço público?
Bem, as cifras acima citadas já seriam uma boa razão. De que se trata um sistema carcerário como fonte de gastos reais para sua manutenção? Concreto, ferro, câmeras, alarmes, meia dúzia de guardas para um milhar de presos e comida barata. Nesse albergue 5* o aluguel da cama é mais caro que um apartamento confortável em qualquer capital européia, mais os gastos que se teria para comer todo dia em um restaurante e ainda se matricular numa academia de ginástica onde os alteres não são de cimento.
Depois de passar a temporada no spa, presos são soltos, param de "receber" os $1700 mensais, têm dificuldades de se recolocar normalmente no campo laboral e passam a aplicar os conhecimentos que adquiriram durante a instância do MBA em criminalidade. Posteriormente, a maioria volta para desfrutar de mais alguns anos da bolsa de $1700, agora para um doutorado. Aqueles que sobreviverem e saírem mais uma vez, certamente voltarão algum dia para um pos-doc.
Onde quero chegar com isso? Seguramente não no discurso hegemônico que culpabiliza ainda mais os presos, responsabilizando-os pelos $60bi de dinheiro público de pessoas honestas e bla bla bla.
Michel Foucault tinha a idéia de que o sistema carcerário tinha um objetivo fundamental, que era recuperar o Homo criminallis para constituir-lo em Homo oeconomicus. Isso se aplica claramente aos programas profissionais dentro de presídios, onde presos têm a chance de exercer uma atividade que vai reinserindo-lhe o espírito da disciplina laboral. Para o "patrão", uma ótima oportunidade de pagar quase nada para seu empreendimento funcionar. Para o preso, redução de pena e maior facilidade de reintegras-se socialmente no futuro.
Nesse primeiro razonamento, a penitenciária serve simplesmente para disciplinar uma sociedade, para criar Homo oeconomicus. E os presos são os desviados da conduta ideal, da vida normal.
Um segundo razonamento, que não vai contra o primeiro, senão que define uma evolução do ideal economicista, é a apropriação da criminalidade em si como elemento de valor, como um processo lucrativo. Significa ampliar a idéia do profit a serviços de natureza a-econômica. De fato, a maior parte dos loucos não está em hospitais e manicômios, mas sim em prisões, trancados individualmente em ratoeiras e recebendo uma pastilhinha de calmante todo dia. Significa assim reduzir gastos de tratamentos sanitários, onde o dinheiro de fato seria gasto com mais funcionários, medicamentos e melhores instalações.
Os programas de formação educacional ou qualquer tentativa real de reabilitação não alcançam 1% do total de presos, a liberdade para eles será apenas condição temporária e logo retornarão para se juntarem aos veteranos e aos novos produtos da máquina de criminalidade. E continuarão a ser a fatura para manter a ganância de políticos e empresários neste grande business.
Um sistema retroalimentar muito bem pensado, cujas estruturas mudarão apenas no momento em que um grande caos urbano atingir o topo da pirâmide, pesar negativamente no bolso e na vida daqueles que bebem deste rio verde e explicitar a incoerência destes modelos de regulação social.
Preferiria que não fosse através do caos, mas sim de um giro na mentalidade do povo (?) que é explorado mas defende o discurso conservador que sustenta a exploração. E assim a multidão teria maior capacidade para apontar as causas dos problemas sérios, deixando de culpabilizar efeitos de uma perversidade coletiva para enfim construir soluções.
Compreender a política dos discursos nos campos da saúde, segurança, educação, meio ambiente, mídia, consumo, enfim, em tudo que regula a vida humana, deveria ser o objetivo de qualquer indivíduo e sociedade que almejem viver num lugar melhor.

"France Sarkovisions"

Na França, Sarkozy proibiu propaganda nos canais públicos durante o horário nobre. Em poucos anos a proibição estará estendida a toda grade de programação.
Um breve artigo no site da DW (está em português)explica rapidamente as mudanças, seus objetivos e críticas.
Devo considerar duas coisas: 1) aplaudo a iniciativa. 2) a propaganda televisiva tradicional não tem vida muito longa mesmo.
Assisto TV bem de vez em quando e não tenho a menor idéia do que se tem produzido no campo da propaganda televisiva...
E não é à toa que a Google, uma das únicas empresas que aumentaram os lucros em meio à crise, tem maior parte de suas receitas vindas de publicidade "webica".

sábado, 3 de janeiro de 2009

Fim dos EUA. E em 2010. No mínimo curioso, principalmente considerando a fonte...

Wall Street Journal, 29th. Dec. 2008.
By ANDREW OSBORN

MOSCOW -- For a decade, Russian academic Igor Panarin has been predicting the U.S. will fall apart in 2010. For most of that time, he admits, few took his argument -- that an economic and moral collapse will trigger a civil war and the eventual breakup of the U.S. -- very seriously. Now he's found an eager audience: Russian state media.

In recent weeks, he's been interviewed as much as twice a day about his predictions. "It's a record," says Prof. Panarin. "But I think the attention is going to grow even stronger."



Prof. Panarin, 50 years old, is not a fringe figure. A former KGB analyst, he is dean of the Russian Foreign Ministry's academy for future diplomats. He is invited to Kremlin receptions, lectures students, publishes books, and appears in the media as an expert on U.S.-Russia relations.

But it's his bleak forecast for the U.S. that is music to the ears of the Kremlin, which in recent years has blamed Washington for everything from instability in the Middle East to the global financial crisis. Mr. Panarin's views also fit neatly with the Kremlin's narrative that Russia is returning to its rightful place on the world stage after the weakness of the 1990s, when many feared that the country would go economically and politically bankrupt and break into separate territories.

A polite and cheerful man with a buzz cut, Mr. Panarin insists he does not dislike Americans. But he warns that the outlook for them is dire.

"There's a 55-45% chance right now that disintegration will occur," he says. "One could rejoice in that process," he adds, poker-faced. "But if we're talking reasonably, it's not the best scenario -- for Russia." Though Russia would become more powerful on the global stage, he says, its economy would suffer because it currently depends heavily on the dollar and on trade with the U.S.

Mr. Panarin posits, in brief, that mass immigration, economic decline, and moral degradation will trigger a civil war next fall and the collapse of the dollar. Around the end of June 2010, or early July, he says, the U.S. will break into six pieces -- with Alaska reverting to Russian control.

In addition to increasing coverage in state media, which are tightly controlled by the Kremlin, Mr. Panarin's ideas are now being widely discussed among local experts. He presented his theory at a recent roundtable discussion at the Foreign Ministry. The country's top international relations school has hosted him as a keynote speaker. During an appearance on the state TV channel Rossiya, the station cut between his comments and TV footage of lines at soup kitchens and crowds of homeless people in the U.S. The professor has also been featured on the Kremlin's English-language propaganda channel, Russia Today.

Mr. Panarin's apocalyptic vision "reflects a very pronounced degree of anti-Americanism in Russia today," says Vladimir Pozner, a prominent TV journalist in Russia. "It's much stronger than it was in the Soviet Union."

Mr. Pozner and other Russian commentators and experts on the U.S. dismiss Mr. Panarin's predictions. "Crazy ideas are not usually discussed by serious people," says Sergei Rogov, director of the government-run Institute for U.S. and Canadian Studies, who thinks Mr. Panarin's theories don't hold water.

Mr. Panarin's résumé includes many years in the Soviet KGB, an experience shared by other top Russian officials. His office, in downtown Moscow, shows his national pride, with pennants on the wall bearing the emblem of the FSB, the KGB's successor agency. It is also full of statuettes of eagles; a double-headed eagle was the symbol of czarist Russia.

The professor says he began his career in the KGB in 1976. In post-Soviet Russia, he got a doctorate in political science, studied U.S. economics, and worked for FAPSI, then the Russian equivalent of the U.S. National Security Agency. He says he did strategy forecasts for then-President Boris Yeltsin, adding that the details are "classified."

In September 1998, he attended a conference in Linz, Austria, devoted to information warfare, the use of data to get an edge over a rival. It was there, in front of 400 fellow delegates, that he first presented his theory about the collapse of the U.S. in 2010.

"When I pushed the button on my computer and the map of the United States disintegrated, hundreds of people cried out in surprise," he remembers. He says most in the audience were skeptical. "They didn't believe me."

At the end of the presentation, he says many delegates asked him to autograph copies of the map showing a dismembered U.S.

He based the forecast on classified data supplied to him by FAPSI analysts, he says. He predicts that economic, financial and demographic trends will provoke a political and social crisis in the U.S. When the going gets tough, he says, wealthier states will withhold funds from the federal government and effectively secede from the union. Social unrest up to and including a civil war will follow. The U.S. will then split along ethnic lines, and foreign powers will move in.

California will form the nucleus of what he calls "The Californian Republic," and will be part of China or under Chinese influence. Texas will be the heart of "The Texas Republic," a cluster of states that will go to Mexico or fall under Mexican influence. Washington, D.C., and New York will be part of an "Atlantic America" that may join the European Union. Canada will grab a group of Northern states Prof. Panarin calls "The Central North American Republic." Hawaii, he suggests, will be a protectorate of Japan or China, and Alaska will be subsumed into Russia.

"It would be reasonable for Russia to lay claim to Alaska; it was part of the Russian Empire for a long time." A framed satellite image of the Bering Strait that separates Alaska from Russia like a thread hangs from his office wall. "It's not there for no reason," he says with a sly grin.

Interest in his forecast revived this fall when he published an article in Izvestia, one of Russia's biggest national dailies. In it, he reiterated his theory, called U.S. foreign debt "a pyramid scheme," and predicted China and Russia would usurp Washington's role as a global financial regulator.

Americans hope President-elect Barack Obama "can work miracles," he wrote. "But when spring comes, it will be clear that there are no miracles."

The article prompted a question about the White House's reaction to Prof. Panarin's forecast at a December news conference. "I'll have to decline to comment," spokeswoman Dana Perino said amid much laughter.

For Prof. Panarin, Ms. Perino's response was significant. "The way the answer was phrased was an indication that my views are being listened to very carefully," he says.

The professor says he's convinced that people are taking his theory more seriously. People like him have forecast similar cataclysms before, he says, and been right. He cites French political scientist Emmanuel Todd. Mr. Todd is famous for having rightly forecast the demise of the Soviet Union -- 15 years beforehand. "When he forecast the collapse of the Soviet Union in 1976, people laughed at him," says Prof. Panarin.